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Não, os portugueses não são europeus. Os portugueses são da Portugalidade

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Não, os portugueses não são europeus. Os portugueses são da Portugalidade

Portugal não é nação europeia – ou, pelo menos, não é apenas europeu. Dizemo-la assim, de rompante, com a exactidão e segurança que se exigem quando se proclamam as grandes verdades. Parece, claro, afirmação herética: como pode Portugal não ser nação europeia se à Europa se dedica em pleno desde há décadas? Como pode Portugal não ser Europa quando mais não há nas cabeças dos seus chefes que Bruxelas, Paris, Londres e Berlim? Como pode Portugal não o ser em tempo de União Europeia, de Schengen, de Euro e BCE? A resposta é firme: Portugal não é Europa porque escolheu não o ser; Portugal não é Europa porque, digam o que disserem os políticos ou os portugueses confusos, comprados ou mentalmente estropiados, a realidade é o que é. A realidade dos povos é moldada na sucessão das eras; a essência da obra portuguesa, a maior das decisões nacionais, o momento-chave da nossa História foi, precisamente, o instante em que Portugal decidiu construir espelhos de si nos confins do mundo descoberto e por descobrir. Nesse momento ponderoso, Portugal deixou de ser apenas europeu e passou, na profundidade plena do termo, a ser português: ser português tornou-se ser europeu, mas mais que europeu. Isso somos nós, como povo e nação (ainda que já não como Estado) desde as Descobertas.

Ao argumento se fornecem, como prova, aquelas evidências que os portugueses – ou, pelo menos, alguns portugueses – parecem ter vendido a troco de “fundos europeus”, auto-estradas e banal cimento. Que português poderá achar-se europeu – isto é, europeu antes de ser português, europeu antes de ser homem da Portugalidade – ao ouvir missa no Rio, sob as armas de Portugal e escutando um sacerdote em português? Que português estranho, alienado, destruído na consciência poderá achar-se mais em casa em Budapeste – o que nos é Budapeste? – que em Díli, Goa ou Luanda? Que triste português, que ruína de homem poderá considerar-se mais próximo do alemão ou do francês que do cabo-verdiano com que partilha a língua, a fé e tantos séculos de convivência e sangue dado em comum? Decerto haverá alguns, mas quem poderá dizê-los verdadeiros portugueses se ignoram quem são?

Portugal não é europeu. É também europeu, como é também asiático, também africano, também americano. Saiu da Europa, andou pelo globo e regressou dele alterado. Aprendeu a compreender a diferença porque a viu de perto; descobriu aquelas subtilezas que permitem a concórdia entre os povos; fez, onde assentou, o mundo à sua imagem, mas ao fazê-lo mudou-se também no seu âmago. O príncipe das nossas letras, Padre António Vieira, era mulato. Bartolomeu de Gusmão e Alexandre de Gusmão – um, padre e cientista celebrado; o outro, seu irmão, secretário de Dom João V e, a seu tempo, o homem mais poderoso do império – eram de extracção ameríndia. Henrique Dias, herói da Restauração Pernambucana, era negro; Filipe Camarão, seu camarada de armas, índio; Almada Negreiros, glória das nossas artes no século passado, mestiço de São Tomé e Príncipe. O actual primeiro-ministro português, António Costa, é goês. A nossa língua é falada em todos os continentes. Os nossos fortes, as nossas catedrais, os nossos canhões, os nossos padrões, estão espalhados pelo mundo. O que é, pois, Portugal? Europeu ou português? Sem dúvida, é português. Hoje, mais do que nunca, é importante lembrá-lo e repeti-lo. Para que os portugueses saibam quem são e para que ajam em conformidade.

RPB

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