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Nova Entrevista com Maria Saadeh. «O que os irrita é que a Síria seja um país livre.»

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Maria Saadeh é uma arquitecta e política síria. Serve o seu país como deputada independente ao Conselho Popular, o parlamento da Síria, onde representa Damasco e Sednaya. Cristã maronita, Maria Saadeh pertence a uma família ilustre. O seu avô, líder destacado do movimento pela independência da Síria face à França, foi enforcado pela tropa ocupante. Apesar da relação traumática com a Europa, familiar e pessoal, Maria Saadeh expressa-se perfeitamente em inglês e em francês. Na impossibilidade de nos deslocarmos a Damasco, a entrevista é conduzida por Skype. Lá em casa, ouve-se piano. Eis o testemunho de uma mulher que viu o seu país ser consumido pela guerra.

Rafael Pinto Borges entrevistou.

Senhora Saadeh, a guerra síria aproxima-se do fim, mas deixa o país arrasado, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados. Enquanto mulher cristã, como interpretou o início da crise, em 2011?

Quando falamos do início da guerra na Síria, para mim o primeiro medo foi que se repetisse na Síria o cenário iraquiano. Como mulher cristã e independente, o que queria era um país onde pudesse viver. A questão não era política – era de sobrevivência. Era ser ou não ser.

Diziam, claro, que era uma revolta contra “a ditadura” e “pela democracia”. Todos os sírios sabem que o seu governo comete erros, que alguns desses erros são graves, que não há regimes perfeitos. Veja agora o que está a acontecer em França, com centenas de milhares nas ruas em protesto contra Macron! Em todos os países há problemas, e a Síria não é ou foi certamente excepção. Mas agora imagine o que seria se outros países usassem os protestos em França, como aconteceu com os protestos na Síria, para armar terroristas em França, pedir a invasão da França com “objectivos humanitários”, para sugerir até a partição da França! Infelizmente, foi isso que fizeram com a Síria a Arábia Saudita, Israel, os Estados Unidos e até, infelizmente, alguns países europeus.

Considera, pois, que o que se sabe na guerra no Ocidente é uma versão manipulada, alterada, dos eventos?

Sim, a narrativa dominante é a dos inimigos da Síria. Como mulher e síria, senti sempre a responsabilidade de falar pelo meu povo junto de outros. Ouvíamos, por exemplo, o Senhor Erdogan [Presidente da Turquia] dizer que o presidente Assad devia sair, que a sua permanência era intolerável. Mas o povo sírio somos nós. Nós é que devemos decidir o nosos destino e votar nos nossos representantes. Somos nós quem deve decidir se devemos manter este governo ou não, este presidente ou não. O que não podemos aceitar é que outros países usem o argumento da “democracia” para esconder um programa oculto, que é a partição do nosso país e sua colonização.

Independentemente da política e das nossas opiniões do presidente, é nosso dever defender o país, a soberania do país, a exisência do país. Desse ponto de vista, acho que tenho cumprido os meus deveres. Em 2012, já após o início da luta armada, foi-me pedido que servisse a Síria como deputada ao parlamento. Desde então que tenho feito o que posso para mostrar a verdade sobre a Síria aos povos do mundo.

Para além destas iniciativas, qual foi a sua relação directa com a guerra? Qual foi a sua experiência dela?

Quando aceitei ir para o parlamento da Síria, em 2012, falava-se abertamente de uma invasão da Síria que depusesse o governo. Algumas pessoas disseram-me que era má ideia estar a associar-me ao regime, que poderia trazer problemas à minha família, que poderia ter problemas em caso de invasão com as novas autoridades ou os países ocupantes, como os Estados Unidos [risos]. Mas, para mim, o problema nunca se colocou dessa maneira. Para mim, a questão era de sobrevivência e de fazer o que pudesse para ajudar a salvar o meu país. Não fui para a política para defender personalidades; não, fui para a política para defender o nosso povo, a sociedade, o país. Sem Estado, não poderíamos sobreviver. Precisamos de um país livre – e, logo, precisamos deste governo. Não se tratava de saber se estava contra ou a favor do regime – tratava-se de saber se estava contra ou pela Síria. É com isso em mente que tenho lutado. E continuarei a lutar.

Antes da guerra, como era a sua guerra e qual era a posição dos cristãos na vida do país? Havia algum tipo de discriminação?

Na Síria não pensamos em nós e nos outros como”cristãos”, “muçulmanos” ou “judeus”; pensamos em nós como sírios. Desse ponto de vista, a Síria era e é realmente diferente de países como o Líbano ou o Iraque. No Líbano, como sabe, a vida política divide-se por seitas; na Síria, é totalmente diferente. Não há sequer discriminação étnica. Podemos, por exemplo, encontrar curdos nas mais relevantes posições. Todos são parte do corpo da Síria.
Algo que nos causa sempre curiosidade [aos cristãos do Médio Oriente] é o que os europeus dizem e pensam de nós. Por exemplo, a França chegou a sugerir que os cristãos sírios viessem todos para a Europa ou para a França, onde seriam protegidos. Por um lado, esse tipo de discurso procura dividir os sírios, virando-os uns contra os outros e sugerindo que há sírios que não podem viver na Síria…

E considera a Senhora Saadeh insultuoso esse discurso? Irrita-a a facilidade com que alguns ocidentais, geralmente cristãos, falam dos cristãos do Médio Oriente como se soubessem melhor o que lhes convém?

Exactamente! Falar do Cristianismo é falar do Oriente. É necessário falar do Levante, que é a origem do Cristianismo. E em França? Em França não há sequer religião; não é um Estado cristão, mas um Estado agressivamente laico e repressor das liberdades religiosas desde há séculos. Já praticamente nem há cristãos em França. Mas, veja bem, querem tirar-nos do nosso país e mandar-nos para a França! A origem do Cristianismo é aqui – nós é que estamos onde devemos estar. São os cristãos de todo o mundo que devem vir a Jerusalém, eles é que devem voltar para cá, que é a sua origem. Na Síria o que há é a Síria, há a nação e as nossas responsabilidades perante a nação.

Senhora Saadeh, permito-me recordar os primeiros meses da crise síria e do que se dizia da Síria na imprensa ocidental. A imagem que se oferecia aos ocidenais era de que o conflito era entre manifestantes, depois guerrilheiros, pró-democracia e um regime autoritário. Seria importante ouvi-la sobre isso. O que aconteceu em 2011?

Permita-me demonstrar a situação desde o início. E permita-me, também, dar-lhe a minha experiência pessoal. Enquanto arquitecta, viajo bastante de maneira a visitar os edifícios que desenho enquanto são construídos. Quando veio a chamada Primavera Árabe, comecei a ver com frequência manifestações. Ora, eis a parte extraordinária: víamos repetidamente que as pessoas que apareciam em protestos em Damasco eram as mesmas que apareceriam em protestos em Beirute [capital do Líbano, que faz fronteira com a Síria]! É de acreditar que estas pessoas, que em muitos casos não eram sequer sírias, se faziam à estrada durante horas e horas somente para protestar? É óbvio que eram pagas, e nós sabemo-lo perfeitamente; temos todas as provas. Outra coisa que registei desse tempo foi a enorme desonestidade dos meios de comunicação. Certa vez, estava eu a tomar um café na Praça Omíada de Damasco quando me ligaram amigos desde Londres, muito assustados com a minha segurança. Diziam que tinha havido uma grande bombardeamento da Praça Omíada, que o tinham visto na televisão. Eu fiquei espantada, pois estava na Praça Omíada nesse exacto momento e tudo estava perfeitamente calmo. Era tudo mentira. Eram mentiras da imprensa ocidental, que estava apostada em mostrar que a Síria é um inferno, que há um regime brutal, uma ditadura, etc. Daí que tenham cancelado a concessão de vistos a cidadãos sírios: não queriam que fossem sírios decentes à Europa mostrar a verdade do que se passava no seu país.

Em 2011, o herdeiro do Trono de Portugal, SAR o Duque de Bragança, visitou Damasco. Tinha sido convidado pelo Presidente al Assad para servir de moderador entre o governo e a oposição. Na altura, a visita foi muito criticada pela imprensa portuguesa, que acusou SAR de conluio com “o regime”. O interessante é que, mais tarde, tivemos eu e o SAR oportunidade de discutir esta ida a Damasco, e o que me foi dito é que o Presidente Assad estava realmente aberto para discutir reformas políticas, da Constituição e do sistema de partidos. De acordo com o Senhor Dom Duarte, era a oposição que não queria negociar.

Houve muitas iniciativas de reforma política e diálogo. É óbvio que todos os cidadãos sírios de boa vontade queriam que houvesse uma solução política para a crise, pois os sírios são uma família. E julgo, honestamente, que o governo manifestou sempre grande vontade de sair da crise pela negociação. O presidente Assad sempre ofereceu a via do diálogo – até pediu às oposições que se tinham exilado que voltassem à Síria para que pudesse haver diálogo. Eles recusaram. Porquê? Porque estas “oposições” não são livres, mas controladas por outros. Se eles aceitassem vir, a guerra terminaria. E isso é algo que os patrocinadores estrangeiros desta guerra não podem aceitar. Eles estão nas mãos de planos alheios.

Fala em “planos” e “patrocinadores” estrangeiros. A que se refere, concretamente?

O que os irrita é que a Síria seja um país livre. Não contraímos empréstimos com bancos internacionais. Não lhes temos dívidas. Não somos vassalos. Eles não têm controlo sobre nós como têm sobre outros. Nós temos a nossa soberania e tomamos as nossas decisões. Somos parte da resistência regional ao seu domínio. Depois há Israel. Eles não aceitam a nossa posição face a Israel, pelo que querem mudar as regras do jogo. Pretendem transformar o que tínhamos até agora, um conflito israelo-árabe, em conflito árabe-árabe ou muçulmano-muçulmano. Eles querem dominar o território, tomar os recursos naturais, o petróleo. Querem, também, construir um gasoduto que ligue a Europa ao Catar e que necessariamente teria de passar pela Síria. Eles pretendem dominar o coração do Médio Oriente, que é a Síria, para poderem dominar tudo o resto.

Também temos amigos. A Rússia, por exemplo. Mas o apoio da Rússia não é só pela soberania da Síria, nem se explica só com uma amizade pelo povo da Síria. Também se explica por existirem interesses mútuos. A segurança nacional deles depende também da Síria, pois há milhares de terroristas da antiga União Soviética a lutar no nosso país.

Falou de Israel, pelo que aproveito para fazer uma pergunta que interessará aos nossos amigos brasileiros. Recentemente, o maior país do mundo português, o Brasil, elegeu como seu novo presidente alguém que afirma querer reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Como cristã levantina, o que julga dessa pretensão?

Julgo que ele não tem o direito de reconhecer nada, e que deve evitar matérias que desconhece. Quem decide o estatuto de Jerusalém é o povo desta região, os palestinianos, que são a população original daquele país, e quem tem a cultura e a História desta região. E acho, claro, estranho que um presidente que se diz cristão pareça desprezar totalmente os direitos dos cristãos à cidade santa de Jerusalém, para mais ignorando-os em benefício de um país que nenhuma relação tem com o cristianismo. Tantos líderes que se dizem cristãos no mundo, e tão poucos os que defendem os cristãos que vivem onde Cristo viveu!

Senhora Saadeh, a guerra síria parece estar a terminar. Damasco está calma. Homs, as províncias do sul e do leste, até Alepo, foram recuperadas pelas forças armadas e vemos já desabrochar o trabalho de reconstrução. Reabrem escolas, hotéis, hospitais; a economia oferece sinal tímido de recuperação. Varrida qualquer possibilidade de vitória militar rebelde, parece-lhe provável que as tentativas diplomáticas para fechar o conflito, nomeadamente através das conferências de Genebra e de Astana, tenham agora maior sucesso?

Quando começou o processo de Genebra, há cerca de seis anos, a imprensa perguntou-me o que achava de tudo aquilo. Respondi que não acreditava, e que acabaríamos por ver um Genebra I, II, III, até X. E tinha razão. A guerra não pode ser terminada desde o estrangeiro ou pelo estrangeiro. A única conferência de paz que devemos aceitar é a de Damasco. É o povo sírio que deve sentar-se a uma mesa, sem ingerência externa de tipo algum e determinar o seu futuro. Na minha opinião, Genebra mais não é que um palco para as grandes potências – os Estados Unidos, alguns países europeus, alguns países árabes – defenderem os seus próprios interesses. O processo é bloqueado por uma agenda oculta; vários dos participantes, ou pelo menos dos apoiantes dos participantes, não querem realmente o fim da guerra e desejam, pelo contrário, o seu prolongamento.

A que poderes se refere?

À Arábia Saudita, à Turquia, aos Estados Unidos, à França, a Israel. Daí que apresentem exigências inaceitáveis como um governo de transição, um novo governo, uma constituição de inspiração fundamentalista, ou que queiram obrigar-nos a dialogar com os representantes de terroristas. Há também algo estranho e que gostaria de referir: falam de liberdade na Síria, mas os rebeldes são terroristas apoiados pela Arábia Saudita. Onde está a liberdade na Arábia Saudita? Consegue imaginar a fúria se o presidente Assad, que nunca mandou matar um só inimigo político, fosse o culpado pelo assassínio de Jamal Khashoggi? Liberdade e democracia, dizem. É óbvio que nada do que aconteceu na Síria teve relação com a liberdade ou a democracia.

Aproxima-se a paz e, nela, a reconstrução. As Nações Unidas estimam que as perdas económicas impostas pela guerra ultrapassem os duzentos mil milhões de euros, o que é várias vezes o Produto Interno Bruto da Síria e quase o PIB de Portugal. Com que amigos conta Damasco para a recuperação económica?

Alguns analistas ocidentais têm esperado que agora, no momento da reconstrução, a Síria ofereça concessões a troco de investimento europeu e americano. É uma loucura. Obviamente, não nos renderemos na paz se não o fizemos na guerra. Não temos pressa em reconstruir o país. Não queremos apoios dos países que financiaram o terrorismo, cujos dólares pagaram as balas que mataram as nossas mães, os nossos filhos, os nossos maridos. Mesmo que o governo [da Síria] o aceitasse, o povo não o aceitaria. Não queremos nada dos paises que participaram na destruição da Síria. Não aceitamos nada daqueles que tomaram parte na destruição do nosso Estado, que desmantelaram o nosso país, que roubaram os nossos tesouros artísticos e os venderam à máfia turca. Como poderíamos aceitar a presença deste países no nosso? Fora isso, todos poderão participar no esforço de reconstrução. Contamos especialmente com aqueles países que se revelaram bons amigos do nosso durante estes anos de guerra, como a Rússia, a China ou o Irão.

E os Estados da Europa? Podemos esperar uma reaproximação entre as nações europeias e a Síria no futuro próximo?

Sobre a Europa, há várias coisas a considerar. Por um lado, sabemos que há muitos países europeus que só estiveram contra a Síria por a sua posição ter sido ignorada em favor de uma linha europeia comum – ou seja, porque a sua voz foi esmagada pela União Europeia. Sabemos também que os povos europeus não estiveram necessariamente com os seus governos, e um grande segmento da sociedade esteve com a soberania da Síria, contra a guerra na Síria, soube que os seus governos estavam a participar na destruição da Síria. Não podemos culpar os povos, e não o fazemos. Mas, a nível oficial, é evidente que não podemos simplesmente esquecer o que se passou. Morreram centenas de milhares de compatriotas meus. Ainda assim, acho que os sírios estão preparados para perdoar. Contudo, têm de ser os próprios europeus a dar o primeiro passo e a demonstrar que desejam reconstruir a relação connosco. Não por quererem participar no processo de reconstrução que se avizinha e por quererem fazer dinheiro com a Síria, mas por reconhecerem que estavam enganados.

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